No relatório final do inquérito
sobre o acidente aéreo que matou 62 pessoas – 58 passageiros e quatro
tripulantes da Voepass –, a Polícia Federal (PF) concluiu que a companhia aérea
omitia reportes de pane com o objetivo de burlar fiscalizações da Agência
Nacional de Aviação Civil (Anac) para, assim, seguir com a operação sem que as
aeronaves ficassem retidas em solo para manutenção.
Um trecho do documento, ao qual o
Metrópoles teve acesso, aponta que a falha técnica que contribuiu para a queda
do voo 2283 não foi um evento isolado, mas sim o resultado de “reiteradas
condutas de omissão na manutenção dos sistemas de degelo, potencializado por
uma cultura de gestão da companhia aérea que priorizava a disponibilidade da
frota em detrimento da segurança operacional”.
Antes da queda, os pilotos
receberam ao menos cinco alertas que sinalizavam falhas operacionais, de acordo
com a perícia técnica. Os avisos indicavam a necessidade de abandonar a área de
formação de gelo e manter a velocidade mínima de segurança recomendada para
condições severas, o que não aconteceu. Sem a execução imediata dos
procedimentos adequados, houve perda do controle da aeronave.
Um comandante informou à PF,
durante depoimento, que os aviões da Voepass eram frequentemente despachados
com falhas em algum sistema de degelo, cabendo ao piloto, por decisão própria,
escolher nível de voo abaixo da faixa de formação de gelo. Em março de 2023, a
Anac já havia constatado falhas no sistema antigelo de aeronaves que voavam
normalmente, mesmo sem haver qualquer registro de manutenção aberto no diário
de bordo técnico (TLB, na sigla em inglês). Cerca de um ano antes, inspeções de
vigilância já registravam a “ausência de reportes de manutenção” na companhia
aérea.
Em coletiva nessa quarta-feira
(6/8), o delegado André Ribeiro, da Polícia Federal de Campinas, disse que a
investigação identificou uma cultura de omissão em todas as cadeias da Voepass:
“Pessoas da companhia aérea assumiram o risco de expor a aeronave ao perigo”
PF aponta “cultura de não
reporte” na Voepass para driblar Anac
De acordo com o relatório da
Polícia Federal, a análise dos processos da Anac demonstra que a omissão de
registros técnicos na Voepass não foi um erro pontual da tripulação do voo
2283, mas sim uma prática institucionalizada, prolongada e de conhecimento das
esferas gerenciais, com o objetivo de burlar a fiscalização e evitar a
inoperância comercial da frota.
A prática mais comum era a
omissão deliberada de panes no Technical LogBook (TLB), o livro oficial de
registros técnicos da aeronave. Diversos tripulantes da companhia aérea
relataram que anomalias técnicas eram tratadas “de boca” com a manutenção,
evitando assim que o problema entrasse no radar da Anac. O documento traz
registros de voos em que, mesmo com falhas no sistema de degelo, comandantes
assinalaram “nothing to report” (“nada a reportar”).
“A gente consegue perceber que
pilotos do voo anterior apertaram o botão que registrava problema no degelo
mais de uma vez. Eles sabiam que estava em falha naquele momento. A obrigação,
no entanto, é reportar à equipe de manutenção, mas não houve reporte”, afirmou
o delegado Carlos de Eduardo Palhares, chefe da Perícia Científica da Polícia
Federal em Brasília, durante a coletiva.
Outras práticas irregulares
O relatório da Polícia Federal
cita a “cultura organizacional de omissão de registros” da Voepass como um dos
fatores que contribuíram para o acidente. Além da prática de “não reporte”, o
documento lista ao menos outras quatro práticas irregulares que faziam parte da
cultura mencionada, entre elas:
Manipulação da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL, na sigla em inglês): a empresa utilizava manobras administrativas para manter aviões com defeito voando. Uma delas envolvia substituir um componente inoperante por outro sabidamente em pane e liberar a aeronave em seguida, permitindo a renovação sucessiva do prazo de retificação previsto na MEL sem que o efetivo reparo fosse feito.
Pressão e coação da direção:
depoimentos de funcionários revelam que a negligência técnica e a omissão
documental eram uma política institucionalizada, mantida por meio de coação e
intimidação, inclusive, com ameaças de demissão por parte de superiores hierárquicos.
Era comum a chefia pedir para que as falhas só fossem formalizadas quando a
aeronave chegasse à base principal da Voepass, em Ribeirão Preto, evitando o
bloqueio do avião em outras localidades.
Manutenção irregular: um mecânico
relatou ter sido orientado a retirar uma bomba hidráulica enferrujada e cheia
de fluido de um avião abandonado e despachá-la diretamente para ser instalada
em outra aeronave em voo, sem passar pelas revisões e inspeções de bancada
exigidas.
Seleção de tripulantes menos
experientes: o relatório da PF menciona que o comandante do voo acidentado,
Danilo Romano, teria sido promovido rapidamente, mesmo sem possuir a
experiência mínima de mil horas em equipamento ATR exigida pelas regras da
própria empresa. Uma das testemunhas disse considerar que a pouca experiência e
o fato de ser recém-promovido poderiam torná-lo mais suscetível a ceder à
pressão da chefia para pilotar uma aeronave com problemas.
O que diz a Voepass
Em nota, a Voepass afirmou ter
adotado rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e
capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) ao longo de sua atuação.
Fonte: Metrópoles





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